
A ASSIBGE-SN reuniu-se com a Assessoria da Secretaria-Geral da Presidência da República para debater a atual conjuntura do IBGE, seus impactos na produção de dados oficiais e os desafios enfrentados pelos trabalhadores do Instituto. Estiveram presentes, pela Executiva Nacional da ASSIBGE-SN, os diretores Diogo Correia, Elvis Vitoriano e Helvécio Amorim, e, pela Secretaria-Geral da Presidência da República, o assessor especial Alexandre Varela.
Os diretores da ASSIBGE-SN iniciaram a reunião destacando a importância da realização de um balanço crítico da conjuntura interna do IBGE e seus reflexos para a produção e disseminação dos principais indicadores sociais, econômicos e ambientais do país. Considerando que o órgão vem passando por diversas mudanças desde 2023, a ASSIBGE-SN avalia como crucial debater, com a Secretaria-Geral da Presidência da República, sob responsabilidade do ministro Guilherme Boulos, os avanços e retrocessos nas pautas dos trabalhadores do IBGE e a permanente necessidade de fortalecimento do órgão que produz dados para o monitoramento das políticas públicas realizadas pelo Estado brasileiro.
Os representantes do sindicato avaliaram que o IBGE passa por uma conjuntura complexa, que contou com o ingresso de novos servidores efetivos, após quase uma década sem concursos, e o alcance da equiparação salarial dos Agentes de Pesquisa e Mapeamento ao vencimento básico dos técnicos do IBGE. Mas, por outro lado, crises constantes conduziram o IBGE a uma situação que demanda uma análise profunda, visando ao fortalecimento das áreas técnicas e à ampliação do ambiente democrático.
Foi relatada a preocupação com o espaço aberto pela atual crise, principalmente após as recentes exonerações, para questionamentos sobre a credibilidade dos números produzidos pelo IBGE, embora tais questionamentos não tenham aderência à nossa realidade operacional. Trata-se de um trabalho consolidado, cuja responsabilidade é compartilhada por muitos servidores experientes e comprometidos. Pontuou-se que os conflitos abertos pela atual gestão com o corpo técnico têm produzido conteúdos na imprensa que retiram o foco do papel do IBGE: produzir indicadores oficiais. Diferentes veículos de notícias passaram a repercutir, com frequência e a partir de diferentes interesses, as crises da gestão, o que, de forma acumulada, poderá fortalecer narrativas duvidosas sobre os indicadores produzidos pelo IBGE. Na avaliação do sindicato, é necessário fortalecer e ampliar os instrumentos democráticos de tomada de decisão do instituto e reduzir a precarização vivida há décadas no órgão.
Crises sucessivas na atual gestão
Os representantes da ASSIBGE-SN relataram que a principal crise desencadeada pela atual direção do IBGE ocorreu após a criação, sem o devido debate e de forma pouco sustentável, da Fundação de Apoio IBGE+. Defendendo um IBGE com orçamento público e livre de interferências, o sindicato estabeleceu um amplo diálogo com os trabalhadores e com a sociedade, alertando sobre o risco da criação de uma fundação de apoio que teria o papel de captar recursos fora do orçamento do IBGE. A crise provocou a saída de diretores e adjuntos das principais áreas do IBGE e, no início de 2025, após repercussão negativa junto ao Parlamento, o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), em nota conjunta com o IBGE, suspendeu temporariamente a fundação. Meses depois, a Advocacia-Geral da União (AGU) considerou ilegal a criação da fundação pública de direito privado IBGE+, por falta de lei específica que autorizasse seu funcionamento, como exige a Constituição.
Paralela à tentativa de criação da fundação de apoio, uma nova crise foi aberta com a transferência dos trabalhadores do prédio da Avenida Chile para um prédio locado do SERPRO, localizado no Horto, local distante do centro da cidade e de difícil acesso. Processo que ocorreu sem o devido debate e causou prejuízos com deslocamentos para a maioria dos servidores.
No segundo semestre de 2025, um novo conflito foi deflagrado com o corpo técnico após a divulgação da minuta do novo estatuto. Na avaliação do sindicato e dos servidores, a proposta de alteração centralizava poderes nas mãos do presidente do órgão e criava um ambiente de instabilidade ao delegar decisões estruturais para o regimento interno, cuja alteração é consideravelmente mais simples e assinada pelo presidente da Casa. A Coordenação de Planejamento e Gestão, área responsável pela elaboração de alterações no estatuto, que até o momento não foi chamada a participar ativamente desse trabalho, emitiu, à época, uma nota técnica pontuando problemas na minuta inicial proposta pela direção. Após a publicação da nota técnica, a coordenadora do setor pediu exoneração. Em nova campanha realizada pelo sindicato e consulta aos trabalhadores, a direção retrocedeu consideravelmente na proposta inicial. Porém, a minuta ainda não foi enviada para sanção presidencial.
Atualmente, o sindicato questiona a contratação da empresa SERPRO por dispensa de licitação para prestação de serviço estratégico e continuado em Tecnologia da Informação e Comunicação. O sindicato vê com preocupação a transferência de dados para o SERPRO e alerta que a contratação promoverá o desmonte da infraestrutura dos bancos de dados do IBGE e aumentará a dependência de orçamento para a continuidade dos serviços críticos na área de informática. Processo que retira a autonomia dos dados do IBGE.
No bojo da crise desencadeada pela criação da Fundação de Apoio IBGE+, o IBGE obteve maioria de diretores de fora da instituição. Fato inédito, que o sindicato avaliou como um sinal de perda do conteúdo técnico, desprestígio dos servidores da Casa e ampliação da interferência do presidente nas decisões do Conselho Diretor.
Exoneração da Gerente de Contas Nacionais
Na última semana, mais uma crise foi detonada com a exoneração da coordenadora das Contas Nacionais. A exoneração ocorreu às vésperas da divulgação do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil de 2025, prevista para o início de março. A Coordenação de Contas Nacionais encontra-se diretamente envolvida na implementação do Novo Ano Base do Sistema de Contas Nacionais, processo complexo e sensível que envolve a revisão de metodologias de cálculo, a incorporação de novas bases de dados e a atualização de bases históricas. Trata-se de um sistema estruturante, responsável pela geração dos grandes agregados macroeconômicos utilizados no acompanhamento da economia do país, como o PIB, a Renda Nacional, o Investimento, a Poupança, entre outros. Nesse contexto, uma mudança de coordenação em pleno curso desse processo deveria ter sido conduzida de forma mais cuidadosa. A ASSIBGE-SN entende que, embora seja prerrogativa da administração substituir titulares de cargos de chefia, tais mudanças devem, necessariamente, priorizar a continuidade dos programas de trabalho e a preservação institucional.
Crise na área de comunicação do IBGE
A área de comunicação do IBGE vive um ambiente de crises recorrentes, como ficou evidente na inclusão de um prefácio assinado pela governadora de Pernambuco na 32ª edição do periódico Brasil em Números 2024. Técnicos da área e o sindicato alertaram sobre a inadequação do conteúdo, mas foram ignorados. Foi considerada grave a inclusão, em uma das publicações mais prestigiadas do IBGE, de conteúdo que sugeria elementos de propaganda de governo, maculando o caráter imparcial e técnico historicamente reconhecido da instituição. A publicação, que enaltece ações do governo de Pernambuco, foi mantida apesar das recomendações contrárias, o que, segundo os servidores, compromete a neutralidade técnica e a credibilidade da instituição, além de ferir o princípio da impessoalidade na administração pública.
No dia 28 de janeiro, em mais um episódio dos problemas vividos na área de comunicação, houve novas exonerações, desta vez na Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI). Além da exoneração, foi comunicado que toda a sua equipe será transferida de unidade, passando a trabalhar no IBGE em Parada de Lucas, a mais de 20 km do local atual de trabalho. O ambiente não possui condições adequadas para funcionamento, pois não recebeu as reformas avaliadas como necessárias pela própria instituição em 2018. A região onde está localizado o Complexo de Lucas é uma área de permanente conflito de facções criminosas, e as instalações possuem vulnerabilidades. No início do ano, a unidade encontrava-se sem internet. A transferência dos trabalhadores da comunicação para a unidade da Parada de Lucas foi avaliada pelo sindicato como mais uma medida retaliatória. Servidores da GECOI protagonizaram embates públicos com a gestão Pochmann, inclusive no episódio da denúncia do uso político da publicação Brasil em Números 2024.
Exonerações em outras gerências da área de comunicação já haviam ocorrido no final de 2025. Ocorre um processo de substituição de antigos servidores por servidores em estágio probatório.
Ações antissindicais
Como forma de retaliação à resistência dos servidores às ações centralizadoras da atual gestão do IBGE, a direção do órgão passou a realizar ações antissindicais. Por meio de comunicação extrajudicial, a direção do IBGE exigiu que a ASSIBGE-SN retirasse o sufixo IBGE do seu nome. A manifestação se deu justamente em resposta aos questionamentos do sindicato sobre aspectos da fundação de direito privado, dentre eles, o uso do nome IBGE+. A utilização da sigla de órgão público em nomes de sindicatos e associações de servidores no Brasil é uma prática antiga e disseminada. Entre centenas de outros exemplos, podemos citar organizações como a Afipea, Asinep, Asibama, AudTCU, Afinpi, Adufrj. Dessa forma, a tentativa de impedir os servidores de utilizarem o nome de seu próprio órgão não ataca apenas o direito de organização dos ibgeanos, mas sim o conjunto do funcionalismo público, uma vez que pode ser replicada em outros institutos.
Em outra ação antissindical, a direção do IBGE passou a cobrar aluguel retroativo de cinco anos do espaço utilizado pelo sindicato nas superintendências, ignorando que essa prática é uma tradição histórica da Casa, que ocorreu até mesmo durante a ditadura militar. A tentativa de expulsar a ASSIBGE-SN do espaço físico do IBGE evidencia o enfraquecimento do diálogo democrático e o desrespeito à organização legítima dos trabalhadores.
Continua sem negociação a greve realizada pelos servidores do Núcleo Chile em 2024, que se manifestaram contra a Fundação IBGE+ e a mudança para o Horto. A não negociação de greves e dias paralisados não possui precedente na história recente do IBGE.
Expectativas não atendidas
O sindicato avaliou que a transição vivida em 2023, de um governo com projeto de destruição do serviço público para um governo comprometido com a reestruturação do papel do Estado no desenvolvimento nacional, abriria uma janela de oportunidade para reduzir a precarização no IBGE e avançar com a democratização no órgão. Na avaliação da ASSIBGE-SN, essa expectativa ainda está distante da realidade vivida pelos trabalhadores do IBGE, apesar das recomposições salariais e de benefícios.
Como exemplo do distanciamento entre expectativa e realidade, foi destacado que o orçamento do IBGE permanece aquém da necessidade do plano de trabalho do órgão e o uso da força de trabalho temporária no IBGE aumentará a partir do novo Processo Seletivo Simplificado. Além disso, o projeto de reestruturação de uma nova carreira, aprovado em 2014, não avançou nas negociações de 2024.
Ainda que tenhamos conquistado, nesse período, a equiparação do salário dos Agentes de Pesquisa e Mapeamento ao vencimento básico do técnico do IBGE, pauta histórica do sindicato, o salário já se encontra defasado após dois anos, e outras parcelas dos trabalhadores temporários tiveram reajuste apenas em 2023.
O sindicato avaliou como positiva a entrada de novos trabalhadores por meio do CPNU, conquista importante da mobilização da categoria. No entanto, o déficit de servidores no IBGE permanece elevado, evidenciando a necessidade de novas contratações para atender às demandas do órgão.
O anseio por democratização, por meio da criação de um Congresso Institucional, bandeira histórica do sindicato, foi substituído por um processo de Diálogos com os trabalhadores. Esses eventos foram organizados pela direção do IBGE de forma deliberadamente confusa e dispersa, não se assemelhando ao Congresso Institucional defendido pelos servidores. Apesar disso, essas foram oportunidades concretas para que os servidores se reunissem e discutissem os problemas da instituição. Porém, até o momento, os diálogos não produziram resultados concretos, gerando muitas expectativas sem encaminhamentos efetivos.
Posteriormente, a direção do IBGE implementou um processo de debates junto aos trabalhadores temporários, estimulando a defesa da ampliação do tempo do contrato de trabalho de três para cinco anos. Processo que esvaziou o conteúdo do debate sobre essa pauta a partir dos fóruns do sindicato. Na avaliação do sindicato, essa foi uma ação populista, por enfraquecer o papel da representação da categoria.
Próximos passos
A assessoria do ministro Guilherme Boulos ouviu atentamente as informações, recepcionou a documentação sobre os fatos relatados e solicitou mais conteúdo para aprofundar as questões. Houve a sinalização de avaliar emergencialmente as ações antissindicais relativas à mudança de nome do sindicato e à questão dos espaços utilizados pelo sindicato na sede do IBGE. Os pontos relativos à compensação da greve na Chile e à transferência dos trabalhadores para o Complexo de Lucas serão avaliados mais detalhadamente.
Os diretores da ASSIBGE-SN incluíram ao pedido a demanda pelo reajuste e pautas não remuneratórias dos trabalhadores temporários, assim como a inclusão da realização de um congresso institucional no novo estatuto do IBGE, que será encaminhado ao presidente Lula para sanção. Os diretores reafirmaram a importância de que a escolha do presidente do órgão passe por um processo democrático, com consulta aos servidores, bem como a escolha de seus diretores e superintendentes.
A assessoria informou que irá tratar internamente dos diferentes pontos levantados. Foi solicitada uma nova reunião para acompanhar os desdobramentos. A ASSIBGE-SN seguirá acompanhando os desdobramentos dos temas apresentados, cobrando providências e reafirmando seu compromisso com a defesa do IBGE público, forte e comprometido com a produção de informações oficiais de qualidade.


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