
Ao completar 90 anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) enfrenta um processo profundo e preocupante, capitaneado pela atual gestão. Sob o pretexto de uma “modernização” e do “ingresso na Era Digital”, o que se testemunha é a ampliação histórica da precarização do trabalho e a substituição gradual de uma estrutura pública permanente por modelos flexíveis, temporários e fragmentados.
O IBGE caminha para se tornar uma estrutura dependente de contratos precários, consultorias terceirizadas, orçamentos paralelos e uma lógica de gestão centralizadora baseada em projetos episódicos.
- A Ampliação Predatória do Trabalho Temporário
A substituição de servidores efetivos por pessoal temporário no IBGE é um processo que se arrasta por mais de duas décadas, mas que atingiu níveis alarmantes na gestão atual. O lançamento de um novo Processo Seletivo Simplificado (PSS) com 9.580 vagas temporárias representará um aumento de 27% nessa modalidade de contratação. Apesar disso, a Direção rejeitou integralmente a pauta do sindicato que reivindicava a ampliação de direitos para esses trabalhadores.
Além de inflar o percentual de Agentes de Pesquisas e Mapeamento (APMs) e Supervisores de Coleta e Qualidade (SCQs), a Presidência prepara um processo seletivo (nos termos da Lei nº 8.745) para cargos de Nível Superior. Isso significa que a precarização, que já está institucionalizada no trabalho de campo e fragiliza a gestão das agências, agora se estenderá sistematicamente para as áreas de:
Planejamento e análise estatística;
Crítica de dados;
Procedimentos de divulgação de pesquisas.
Essa dinâmica não é inédita: temporários de nível superior contratados para supervisão de pesquisas por telefone foram parcialmente absorvidos por atividades da Diretoria de Pesquisas (DPE), assim como APMs foram incorporados em trabalhos da Diretoria de Geociências (DGC) no Rio de Janeiro. Porém, a contratação que a atual direção planeja ampliará esse modelo para outras atividades.
Como já é de amplo conhecimento da categoria, o uso de mão de obra temporária corrói a capacidade técnica permanente do órgão. No contexto atual de flexibilização do funcionalismo público, impulsionado pelo fim do Regime Jurídico Único (RJU) como regime obrigatório, esse modelo aponta para a extinção progressiva das carreiras de servidores efetivos.
Soma-se a isso a contratação de consultores em escala inédita (financiados inicialmente pelo UNFPA durante o Censo Demográfico e agora estendidos à rotina do órgão). Com essas medidas, a administração de Márcio Pochmann sinaliza que a precarização é uma escolha deliberada de planejamento.
Ao analisar a trajetória acadêmica e militante do atual presidente, Márcio Pochmann, trata-se de um claro estelionato acadêmico e político. Pochmann construiu sua reputação estudando e combatendo a precarização do trabalho, identificando-a em sua vasta bibliografia como um mal a ser extirpado. Hoje, assume, na prática, uma postura neoliberal, enquanto discursa publicamente em defesa do fortalecimento do Estado e do combate às desigualdades.
- A “Lógica de Projetos” e a Ameaça à Soberania Nacional
A atual gestão promove uma mudança estrutural no modelo do IBGE, substituindo processos institucionais contínuos por projetos sazonais. Sob o pretexto de reconhecer o IBGE como um Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) e aproximá-lo do modelo de fundações de apoio, abriu-se a porteira para a produção de estatísticas sob “encomenda”.
Essa decisão fomenta uma perigosa “porta giratória”, onde profissionais alternam constantemente entre o setor público e o privado, e desvia o órgão de sua missão principal: produzir informações estatísticas e geocientíficas oficiais, que possuem caráter de Estado e diferem da pesquisa puramente acadêmica.
O Subfinanciamento e as Fundações Privadas
A tentativa fracassada de criar a Fundação “IBGE+” — rechaçada por servidores e pelo sindicato devido a ilegalidades e inadequações — ressurgiu disfarçada. Uma nova resolução sobre fundações, apresentada em maio de 2026, tenta novamente contornar o arcabouço fiscal e o subfinanciamento público, trazendo de volta a mesma lógica de privatização interna de serviços.
Desde o início, a gestão empenha-se em erguer estruturas paralelas para gerenciar projetos e verbas externas, o que ameaça criar um “IBGE paralelo”, alheio à missão institucional. O uso massivo de consultorias impedirá o acúmulo de conhecimento técnico dentro da casa, pois o saber gerado será parcialmente perdido com o fim dos contratos, o que já ocorre com a contratação de trabalhadores temporários.
A expansão do financiamento fora do Orçamento Geral da União põe em risco o Sistema Estatístico e Geocientífico Nacional. Depender de recursos de terceiros compromete a independência profissional e a soberania do Instituto na formulação de seu plano de trabalho. As boas práticas internacionais para Institutos Nacionais de Estatística (INEs) são categóricas: a produção de dados oficiais de alta qualidade exige transparência, integridade e financiamento público estável. Estatística oficial e geoinformação não são atividades episódicas; são funções soberanas que não podem se submeter à lógica de captação de recursos do mercado.
- Gestão Centralizadora e o Desmonte Democrático
A administração de Márcio Pochmann é amplamente descrita pelo corpo funcional como autoritária e centralizadora. A condução truculenta de projetos como a “IBGE+” gerou uma crise institucional sem precedentes, culminando na entrega de cargos de diretores de áreas técnicas cruciais da casa.
Em seguida, a gestão tentou blindar o poder da presidência por meio de uma reforma estatutária que foi apelidada pela categoria de “Estatuto Total Flex”. O objetivo central era transferir o eixo decisório das diretorias técnicas para o gabinete do presidente, transformando o Conselho Diretor de um órgão deliberativo em meramente consultivo, asfixiando o debate interno.
Os chamados “Projetos Diálogos”, que deveriam funcionar como instâncias de decisão coletiva, tornaram-se um simulacro de democracia. Organizados pela Direção de forma dispersa e confusa para esvaziar a proposta de um Congresso Institucional legítimo, esses eventos foram ocupados ativamente pelos servidores para debater as urgências da instituição. Mas os documentos produzidos nesses encontros foram ignorados pela Direção do IBGE, que não só adotou medidas em completa contradição com o que havia sido debatido, como também utilizou oportunisticamente pontos de debates inacabados para justificar suas ações.
Quem carrega a história do IBGE somos nós!
Em seus 90 anos de história, o IBGE foi construído pelo compromisso, pela competência e pela dedicação de seus trabalhadores. São servidores efetivos e temporários que percorrem o país, enfrentam distâncias, dificuldades e condições adversas para produzir informações essenciais sobre o Brasil e sua população. É esse trabalho cotidiano, guiado pelo rigor técnico e pelo compromisso público, que permite ao país conhecer sua realidade, planejar políticas públicas e defender sua soberania nacional.
Mas a história do IBGE não é feita apenas de pesquisas e números. Ela também é marcada pela organização coletiva e pela luta em defesa da instituição pública. Foi a mobilização da categoria, junto à atuação da ASSIBGE-SN, que enfrentou projetos como a Fundação IBGE+ e denunciou os riscos do chamado “Estatuto Total Flex”, barrando iniciativas que ameaçavam a autonomia técnica e democrática do Instituto.
Nenhum direito caiu do céu. Cada conquista, seja na valorização dos servidores efetivos e temporários, seja na defesa do caráter público do IBGE, nasceu da mobilização dos trabalhadores. Diante da precarização, da terceirização e das tentativas de desmontar o órgão por dentro, é fundamental fortalecer a organização da categoria e ampliar a luta em defesa do concurso público, do orçamento público, das carreiras de Estado e da soberania dos dados nacionais.
Parabéns a todos os trabalhadores e trabalhadoras do IBGE por nove décadas de compromisso com o Brasil. Porque quem carrega a história do IBGE somos nós.
SÓ A MOBILIZAÇÃO COLETIVA PODE SALVAR O IBGE!


Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.