
Em uma postagem no X (antigo Twitter), Pochmann começa dizendo que “Após o profundo impacto da pandemia no mundo do trabalho, com iniciativas inovadoras e difundidas generalizadamente, como o home office, cabe saber a situação atual.” Logo em seguida, passa a enumerar, sem muito critério e sem apresentar fontes, razões que, aparentemente, em sua opinião, justificariam uma posição contrária ao trabalho remoto:
Nenhuma ofensiva começa pelo último movimento. Antes do ataque frontal, vêm os sinais, os testes, os recuos aparentes. Depois de suspender o ingresso dos novos servidores no PGD, o presidente do IBGE decidiu atacar frontalmente o trabalho remoto, numa clara antecipação de seu desejo de acabar com essa modalidade no serviço público.
- No Brasil, diversos segmentos do setor privado reduziram o trabalho no domicílio após o pico pandêmico; Sim, é verdade que recentemente muitas empresas alteraram seu modelo de trabalho e que apenas 3% das vagas são totalmente remotas, segundo estudo da consultoria Robert Half divulgado pelo Estadão. Mas o mesmo estudo informa que mais da metade dos profissionais atualmente em regime híbrido (52%) mudariam de emprego caso fossem obrigados a retornar ao modelo totalmente presencial.
No setor público, por sua vez, 68% dos servidores estão em regime híbrido, segundo dados do próprio MGI. Será que isso significa que Marcio Pochmann está se espelhando no modelo das empresas privadas? Logo em seguida, seus próprios argumentos indicam que sim:
- Postos de trabalho totalmente remotos no setor privado foram reduzidos, retornando a patamares quase equivalentes aos do período pré-pandemia;
- Grandes empresas de tecnologia (Amazon, Meta, Apple, Disney etc.) têm reforçado exigências de presença no escritório, o que estimula a discussão em favor do presencial ou do modelo híbrido.
É revelador que, para defender a redução do trabalho remoto, Marcio Pochmann recorra justamente a grandes corporações como Amazon, Meta, Apple e Disney.
A Amazon tornou-se conhecida mundialmente por sucessivas denúncias sobre jornadas exaustivas, monitoramento intensivo dos trabalhadores e condições de trabalho frequentemente criticadas, como relatos de funcionários obrigados a urinar em garrafas plásticas para cumprir metas de produtividade.
A Disney, por sua vez, promoveu demissões em larga escala enquanto ampliava investimentos bilionários em inteligência artificial para automatizar atividades antes desempenhadas por profissionais criativos.
Apple e Meta completam a lista de referências. A primeira acumula denúncias envolvendo sua cadeia de fornecedores e condições de trabalho; a segunda é alvo recorrente de críticas por práticas de vigilância de funcionários, pela gestão controversa de suas plataformas e pela postura política recente de seu fundador, Mark Zuckerberg.
Dificilmente empresas conhecidas por esse tipo de política trabalhista poderiam servir de modelo para a administração pública. Se são essas as referências escolhidas para embasar uma crítica ao trabalho remoto, talvez o problema não seja o teletrabalho em si, mas o modelo de gestão que Marcio Pochmann considera digno de ser seguido.
Pochmann encerra sua postagem com o que parece considerar uma provocação. Primeiro afirma que, globalmente, “a maioria dos trabalhadores já atua de forma totalmente presencial”, sem apresentar qualquer dado ou fonte. Em seguida, menciona números da administração pública federal:
“5. Na administração pública federal, o teletrabalho alcançou, em maio de 2026, o total de 440 mil profissionais no Programa de Gestão e Desempenho (PGD), sendo mais de 100 mil atuando efetivamente em regime remoto, com dispensa do controle de ponto tradicional e avaliação por metas e entregas.”
Aparentemente, o presidente do IBGE está incomodado tanto com a ausência do controle tradicional de ponto quanto com o fato de a maioria dos servidores públicos atuarem em regime híbrido. Naturalmente, ele não menciona que, durante todos os anos de adoção do trabalho remoto e híbrido, o IBGE jamais deixou de cumprir suas metas institucionais. Para Pochmann, ao que tudo indica, isso parece menos importante do que manter trabalhadores fisicamente presentes em gabinetes e repartições.
Pouco importa se os servidores estão mais satisfeitos, mais produtivos ou conseguem conciliar melhor trabalho e vida pessoal, desde que estejam sentados em suas mesas enquanto o próprio presidente passa entre dois e quatro dias por semana longe da sede do IBGE, viajando pelo Brasil e pelo mundo.
E, naturalmente, nunca recebe o sindicato.
Porque, para ele, trabalhador bom é trabalhador calado e obediente.


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